Por que defender Bela Gil?

Em resposta à coluna publicada por Alvaro Leme no R7, onde o autor tenta mostrar o porque do incômodo provocado por Bela Gil, porém apresentando argumentos desconexos sobre a real importância de Bela Gil como formadora de opinião no Brasil atual. Nessa coluna o autor parece ir à contramão de tudo que Bela representa, porém buscando defendê-la no fim, falando que a internet é a turma da “sexta-série”, tendo Bela apenas “opiniões diferentes”.
Link: http://entretenimento.r7.com/blogs/alvaro-leme/por-que-bela-gil-incomoda-tanto-20150728/

Para uma pessoa convicta da dieta vegetariana como melhor alternativa para uma vida saudável e com posicionamentos ético-políticos bem resolvidos sobre isso, uma visita a uma praça de alimentação de um aeroporto ou centro comercial pelo Brasil pode ser uma experiência traumática, especialmente quando não existe nenhuma possibilidade de estar com uma marmita bem feita em uma longa viagem. Absolutamente todas franquias e lanchonetes que operam em nossos aeroportos são incapazes de servir um só alimento vegano ou minimamente vegetariano. Ao indagar mais de uma vez se havia “um salgado ou alimento quente sem carne”, os atendentes sempre dizem, “tem frango com requeijão ou presunto”, como se a pergunta não fosse fácil o suficientemente para ser compreendida. Eu nunca vi uma plantação de frango ou presunto que nascesse em hortas e até onde sei, tanto o frango quanto o porco são animais abatidos para virarem frango desfiado e presunto. Portanto, ambos são carne, sim.

Eu nunca comi melancia na churrasqueira, acho que preferiria uma cebola, abobrinha, berinjela à parmigiana, uma bela pizza ou pão quentinhos à lenha, como costumo fazer em casa. Também não vejo nenhum problema, só acho louvável, que Bela Gil mande granola caseira, batata doce, banana da terra e água como merenda escolar para sua filha pequena.

Também não tenho minimamente pesadelos ao ver que Bela faz estrogonofe de cogumelos e palmito pupunha em vez de carne ou frango. Acho uma ótima ideia colocar inhame palha em vez de batata. Já fiz esse estrogonofe de pupunha em casa e mesmo os carnívoros convictos amaram.

Acredito que defender o uso de cúrcuma em vez de pasta de dente é uma polêmica menor sobre tudo que representa Bela Gil, sem dúvidas ninguém vai levar a opinião dela sobre cúrcuma como a maior verdade do mundo, pois ela se trata de uma nutricionista, não de uma renomada dentista.

Uma mulher que ousa combater de frente uma sociedade tomada pela carne como única forma possível de alimentar as pessoas, onde redes de fast food são praticamente regra absoluta para se alimentar em vias públicas, onde a indústria dita e controla a nutrição e o prazer de comer de uma pessoa comum, sem dúvidas, só pode ser defendida. Bela tem a capacidade de falar isso entre o mundo artístico, com programas televisionados por uma emissora do malévolo verdadeiro grupo Globo, para centenas de milhares de pessoas, seguida por mais de 400mil em um perfil de suas redes sociais. Bela tem livros publicados e muito bem sucedidos. Seu papel na formação de uma nova cultura saudável e livre de carnes como única regra de alimentação é de ser tomado como grandioso, usando e abusando de uma culinária genuinamente brasileira. E é exatamente por isso que ela incomoda tanto.

Seu papel de mulher bem sucedida, não só pelo fato de ser filha de Gilberto Gil, que combate de frente um dado status quo tomado pelo agronegócio e pelos interesses do capital alimentício, inclusive no próprio mundo da mídia em que ela se insere, gera revolta entre os conservadores de sempre. É difícil formar uma consciência emancipatória da alimentação numa sociedade que não dá valor para isso. Ir ao Mc Donald’s, ao Outback, ao Burger King ou até mesmo a uma hamburgueria gourmetizada é fashion, cool, passa na TV o tempo todo, está em todas as vias públicas de uma cidade minimamente grande no Brasil. Todo mundo atualmente sonha em ir a um sushi com a família no fim de semana. Os sonhos da grande periferia na Zona Norte de São Paulo (ainda) é ir comer no Mc Donald’s do Santana Parque Shopping com a família aos fins de semana e passear de cavalinho, para depois, ver novela, ou ir ao culto, quiçá. Bela Gil representa uma ruptura com tudo isso, é óbvio que ela não acessa as grandes massas proletariadas, digamos, mas é igualmente óbvio que ela é uma formadora de opinião neste país, com grande influência sobre nossas vidas. Para a sociedade do churras com os amigos, é óbvio que ela deve ser escrachada e virar piadas na internet, onde tanto ódio é profanado 24h por dia, a níveis criminosos.

Acredito sim que o estilo de vida que a Bela Gil apresenta em seus livros, programas, palestras deve ser defendido. Acredito sim que a sociedade deve repensar toda sua estrutura carnívora e industrial de se alimentar e ser feliz de forma saudável. O problema está muito longe de ser uma questão de internet como “sexta-série” ou mera opção saudável como estilo de vida. Fazer piada sobre a Bela Gil pode ser feita de forma delicada e bem humorada, como ela mesmo fez de si com o Porta dos Fundos, fazenda a receita de cachorro quente de rua no programa.

Não estou defendendo um mundo sem carnes, estou defendendo que isso deva ser uma entre muitas opções, onde se possa minimamente, em um aeroporto, em uma feira de rua, em uma centro comercial, alimentar-se de maneira saudável e gostosa sem ter que recorrer a grandes indústrias e franquias alimentícias que ditem nossa forma de se alimentar, baseado somente em uma cultura baseada na carne e no desperdício, onde isso seja concebido e aceito como cultura única e regra geral. Não é possível que seja normal milhares de pessoas morreram por consequência da obesidade no mundo ou que milhares de hectares de terras sejam devastados para o grande gado na Amazônia, citando poucos exemplos.

Portanto, é preciso defender a Bela Gil e seu trabalho como formadora de cultura e opinião no Brasil atual. De fato seu papel é contestador, questionador e de uma forma ou de outra emancipador, não somente se tratando da mera alimentação nutritiva saudável, mas questionando um modo de produção baseado no agronegócio, abusador dos transgênicos. Seja militando contra a Monsanto e por questões femininas, como o aleitamento materno, Bela é uma figura quase única e necessária em nossa sociedade brasileira atual.

Bela em suas próprias palavras:

Por que defender Bela Gil?

Carne e a Decadência da Revolução Industrial

Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão

Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel

Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, propícia estação
E fecundar o chão

O Cio da Terra – Milton Nascimento

Quando uma pessoa em sã consciência diz abertamente que não consome carne, automaticamente é tratada como estranha. Qual o problema de uma pessoa que prefere não comer carne? Seria esta pessoa incapaz de apreciar os prazeres da gastronomia padrão?

Como poucos parecem compreender, os seres humanos não nasceram naturalmente em grandes cidades abastecidas por uma quantidade infinita de carne a ser desfrutada a qualquer hora do dia, duas, três, quatro vezes ao dia, sem se preocupar com sua possível ausência a curto prazo.

Pode-se acabar a água numa iminente seca. Porém, em meio a uma crise hídrica de longas e graves proporções, os salgados plenamente recheados de presunto, as esfihas fechadas e os cachorros quentes não perdem seus ingredientes básicos. Pode-se lamentar e questionar toda degradação ambiental existente no mundo, o papel da bancada ruralista e a Kátia Abrel como ministra da agricultura, mas vigorarão nas grandes cidades longuíssimos banquetes de sushi sem limites. As churrascarias trabalharão com preços promocionais por todos os dias da semana. As grandes redes de fast food terão lanchonetes abertas 24 horas por dia, 7 dias por semana, com lucros recordes. Enquanto isso, os amigos e amigas se reunirão embriagados num fim de semana para celebrar a vida regada a muita cerveja de milho transgênico e carne assada até altas horas da noite.

Em uma hipotético estado de natureza, a carne é resultado da caça e da criação de animais em cativeiro, sabe-se pela bíblia que havia uma série de restrições para o consumo da carne nas antigas e primeiras civilizações do crescente fértil. Abater animais para o consumo era uma atividade digna de um ritual apropriado, onde uma quantidade grande dos habitantes da pequena região se reuniam para uma grande festa regada a muita bebida e entorpecentes. Uma época em que todo alimento era consumido nos recintos do lar, da comunidade, independente se trocado em um bar ou hospedaria local, como pode se observar em ruínas da roma antiga. Um outro fato a ser destacado seria o das primeiras civilizações terem surgido a partir da inovação que o cultivo em grande escala de alimentos advindos da terra proporcionou à humanidade. Pela primeira vez em toda história humana poderia ser possível sobreviver sem a necessidade de caçar, pescar ou matar seus animais domésticos para sobreviver. Seria possível se fartar de pão e outros grãos da terra sem morrer de fome. O que não significa que todo mundo teria virado vegetariano de um dia para o outro, apenas que surgiram novas possibilidades de sobrevivência em comunidades com um número inédito de pessoas, circundados por uma vida complexa, que envolvia poder, religião, escravos e uma ganância até antes jamais vista, como nos mostra a história egípcia e as dezenas de povos semíticos que habitaram a região da babilônia e da palestina, como bem ilustra o antigo testamento.

Sabe-se que a vida prosseguiu mais ou menos assim até o surgimento da revolução industrial. No Brasil, tal vida com excedente em carne industrial, produtos alimentícios industrializados fornecidos por grandes redes de super mercados é recente. Até a era getulista o Brasil ainda era tipicamente rural, com nossas cidades bastante reduzidas. Seria impossível conceber uma São Paulo de onze milhões de habitantes.

Tem-se que a revolução industrial subverteu as condições naturais de sobrevivência humana em uma estado natural de convivência e consumo. Consumo este destinado ao prazer gastronômico e à necessidade de sobrevivência com o ato de se nutrir. No entanto, em um mundo onde existe o déficit de alimentos, onde o problema da desnutrição, da fome e da desigualdade é recorrente. Temos o excesso por outra parte. Sabe-se que o consumo de carne nos EUA ultrapassa largamente o necessário para sobrevivência humana num x dado do tempo, o mesmo se repete no Brasil (1). O que ocorre é que a revolução industrial industrializou a carne como mercadoria. A vida animal, assim como a vida humana, tornou-se mera mercadoria. A grande diferença é que a vida animal passou a ser criada em cativeiro massificado, assim como os humanos possuem cidades, os animais passaram a ter suas próprias cidades, onde seriam criados, medicados e alimentado justamente para o abate em massa, com o fim de suprir um consumo humano excedente. Aves, porcos, bovinos, peixes, todos estão presentes misteriosamente nos mercados para serem comprados, a preços e qualidades diferentes. Existem aquelas carnes mais populares, outros mais caras com cortes especializados.

No Brasil o lulismo aumenta o salário mínimo, o que acarretou um maior poder de compra das classes populares, que passaram a ter mais acesso a carne e a bens de consumo alimentícios diversos (2). Temos que o poder das empresas alimentícias, assim como o poder do agronegócio nunca foi tão grande sob o “comunista” PT. A bancada ruralista só cresce, ao ponto de ganhar um ministério sob o segundo governo Dilma. Os lucros da Friboi, do grupo JBS, assim como o da Ambev, atingem níveis mais que alarmantes de lobby político, ao ponto de a câmara pedir a extinção do selo de transgênicos nos produtos. O PT combateu o problema da miséria e da pobreza em detrimento de uma expansão e fortalecimento do capitalismo. Não da reforma agrária.

De madrugada, vendo o leilão de bois e vacas, um produto, como muitas pessoas.

Segue-se que o nível de problemas de saúde ligados à má alimentação e a obesidade são crescentes no Brasil, nos EUA e no mundo da pobreza e da desigualdade internacionais (3). O que só prova as consequências desse quadro marcado por excesso de carnes, de um capitalismo fortalecido do agronegócio e das indústrias alimentícias. A indústria alimentícia e o agronegócio matam, muito. Uma grande parte da devastação ambiental é sim consequência desse modelo de produção e consumo. Não se pode falar em mudanças ambientais e conservar um modelo de produção de capital como este.

A educação não emancipadora mantém o status quo, o lobby político faz sua parte e la vita segue così. Acima de tudo, é preciso lutar pelo enfraquecimento dessas grandes indústrias, pela reforma agrária que quase nada avançou em todos os anos de PT. É fundamental que todo mundo tenha direito a cultivar a terra de maneira natural e ecológica, gerando frutos também a serem comercializados, porém de maneira natural, sem danos ao ambiente, de forma equilibrada, além disso, é preciso de uma educação alimentar emancipadora, onde as pessoas saibam a base da vida, da sobrevivência, que é o alimento, a boa saúde, aliada a exercícios físicos e saber cozinhar, o que é um ato libertador.

Dialeticamente falando, não precisamos abandonar todos os avanços gerados pela revolução industrial e o capital. Não precisamos viver num mundo de fome e escassez, mas que saibamos negar a decadência dessa revolução industrial e que passemos a construir um novo modo de produção pautado pela real emancipação humana e animal harmonicamente. Logo, se alguém disser que prefere não comer carne, é porque ela conhece motivos suficientes para saber reduzir o seu consumo de carne para o mínimo possível em uma sociedade com todos esses fatos dados.

P.S: presunto não é carne, caro balconista do boteco.

(1)  http://chartsbin.com/view/12730

(2) Aumento do consume de carnes no Brasil http://www.epagri.sc.gov.br/?page_id=6484

(3) http://www.endocrino.org.br/numeros-da-obesidade-no-brasil/

Carne e a Decadência da Revolução Industrial