O pôr do sol de Lúcia no Anhangabaú

Lúcia saiu de casa para estudar. O dia estava cinza, o sol se esqueceu de São Paulo neste dia. Nas ruas havia uma beleza única em cada pessoa que se passava por ela. Pensamentos sobre uma vida rural e sobre como ela vivida em harmonia com a natureza seria mais vantajosa passavam e cobriam-na de ideias sobre a negação de certos desfrutes da revolução industrial internacional contemporânea. Em um metrô via que, apesar de seu desemprego e do que dizem sobre uma crise econômica, todas as pessoas eram incrivelmente bonitas, aparentando serem mais bonitas que há anos atrás.

Uma amiga uma vez a perguntou:
-Desde quando as pessoas dessa cidade estão tão lindas? Desde quando esse lugar é tão legal?
Enquanto admiram a Praça Roosevelt sob alto teor alcoólico sanguíneo.

Fora ao Poupatempo horas antes, de todos os descasos do governo tucano, este órgão era minimamente eficiente. Talvez exista um quê de beleza na burocracia racionalista-weberiana. Tratou todas as pessoas como deveriam ser tratadas, seus concidadãos in demos, como seres únicos e especiais no universo.

Todas as cenas que Lúcia via pelas ruas ou tuneis do metrô eram dignas de uma bela fotografia. Dois jovens africanos disputavam para carregar, brevemente, pelo menos um pouco de seus aparelhos celulares numa tomado do metrô, sob o olhar vigilante de um casal de seguranças metroviários acima do peso, conversavam caminhando. Um casal simulava uma treta por um pedaço de sorvete caro. Os vendedores de fotos 3×4 sempre muito insistentes e pouco eficientes em detectar pessoas que realmente precisam de fotos 3×4.

Os edifícios todos eram uma obra artística de renomado valor caminhando para Sé. Mesmo aqueles mais antigos e abandonados, fundiam-se a grafites que enfeitavam a luta por moradia digna no centro. Os moradores de rua faziam sua própria poesia de sobrevivência, com suas cobertas acinzentadas, dormiam em monumentos, servidos de doações invernais.

O jovem casal Cheng Bo e Lei Feng optaram por andarem abraçadinhos do trabalho até em casa. São Paulo estava sob um curto dia de inverno montanhoso. Os pixos gritavam sobre as antigas igrejas e palacetes dotados dos famosos pisos térreos tão lusitanos. Nesse dia nem até a PM desistira de causar confusões. No vale do Anhangabaú dezenas de populares agasalhados desfrutavam do prazer da erva fumada, num fim de tarde eventualmente iluminado de rosa pelo Viaduto do Chá. Uma tarde discreta, mas cheia de energia.

Estava pronta para estudar. Talvez andaria até a Mário de Andrade. Talvez perambularia pela Praça Roosevelt. Talvez voltaria para casa e tiraria uma soneca. Já anoitecera e a noite era uma criança, como sempre.

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O pôr do sol de Lúcia no Anhangabaú

Quando Lúcia apagou seu ex

Para Lúcia, ele não passava de uma presença virtual. Algumas fotos dele surgiam, junto de seus antigos amigos. Era impossível se esquecer do quanto foi difícil distinguir as amizades depois do término. Algo nele lhe lembrava seu nostálgico passado. Era um misto de melancolia, tristeza, saudades do que nunca mais existirá, desapontamento e medo ao mesmo tempo, metamorfoseados numa pessoa irreconhecível.

Evitava-o e apagava qualquer vestígio. Afinal, ela já uma mulher madura, não queria causar nenhum conflito, especialmente internos. Mas ele surgia, em telas de chat e ela fingia que não o via. Lúcia sofria por imaginar sua presença em cantos desconhecidos; evitava os mesmo lugares, os pontos famosos, os velhos locais que frequentavam juntos… Uma vez o avistara pela Rua Augusta, ficou arrasada ao pensar sobre como o futuro torna pessoas, um dia tão próximas, em estranhos tão distantes, irreconhecíveis na sombra de um anônimo olhar.

Assim passaram os dias. Não ousava segui-lo pelas redes sociais, mas ele estava lá, virtualmente, a lhe espreitar. Ele dava curtidas seletivas em suas postagens. Deixava comentários mais diretos, tentaria ele se aproximar, tentar ser amigo? Porém Lúcia não ousava arriscar, não depois de tudo, agora vigorava apenas o medo e as lembranças dos terríveis meses pós-ruptura. Ocorreram poucas e breves conversas, curtas e objetivas. Pouca aproximação queria ser feita. A dor de amar, a dor da rejeição e o ciúmes, se misturavam num misto de sentimentos destrutivos que não cessavam. De noite Lúcia bebia e fumava, achando que isso iria curar as cicatrizes em seu peito. O beijo das outras bocas era mera uma anestesia que uma hora ou outra perderia o efeito. Via-se sozinha e derrotada por um velho amor.

Afastou-se de todos os velhos amigos dele, da maneira como pode. Ao menos aqueles mais próximos. Lúcia sabia das relações cultivadas entre seus amigos e seu ex, mas nada podia fazer, não iria largá-los por isso, apenas ignorava. Sentia muito por isso, mas nenhuma possibilidade de convivência com ele era possível.

Alguns velhos amigos tentaram aparecer, de um a um, foram desistindo. A vida separa as amizades que um dia criou, pensava, sem que fosse possível reatá-las a curto prazo. As amizades surgem e vão, como os amores… muitas vezes, ambos casos estão relacionados. A vida adulta isso ensina.

A vida social pela internet tem um ‘quê’ de dor e sofrimento, de falsidade. Por que ser amigos nas redes depois de tudo? Por que ter que conviver com sua presença cotidiana? Mesmo não acompanhando suas postagens, fantasmas surgidos graças a algoritmos de somas matemáticas que fazem conexões entre amizades um dia sinceras, a presença estava lá. Era realmente necessário criar uma relação de falsidade para dar ares de maturidade e superação? Após um momento, desistiu. Decidiu destruir todos seus vestígios virtuais possíveis, assim como a vida já fizera naturalmente, decidiu se libertar de seu fantasma, que insistiu em ser camarada, sem sucesso.

O que um dia fora esperança, ilusões passadas, tornou-se mágoa, certeza do que jamais seria de novo, uma aceitação da derrota de uma relação de faculdade juvenil e de certo modo adolescente. A vida de universidade deu lugar a uma vida de desemprego e novas e incertas buscas de vida numa caótica realidade paulistana num Brasil devastado. Decidiu apagá-lo de vez.

Neste dia, acordou tarde, como de costume. Fez seu café spresso. Abriu o computador. Tremia de receio. Chegou a pensar duas, três, quatro vezes, insegura. Abriu as configurações da página. Sabia que, depois disso, ele desapareceria para sempre. Nenhum vestígio, como a vida já tratara de fazer. Escreveu seu nome, certificou-se que a foto batia à pessoa. Respirou, fechou os olhos e clicou. Sua foto ressurgia na direita, ainda, preocupou-se. Escrevia seu nome na pesquisa e nada! Clicou na foto para se certificar, uma mensagem dizia em outra língua, “você não pode mais falar com esta pessoa”. A pequena caixa de diálogo se fechava. Um vazio se encheu em seu peito. Desesperou-se por alguns minutos. Arrependeu-se. Pensou que havia cometido um grande erro. Sentia-se a pior ex-namorada do mundo. Surgiu uma melancolia. Um frio na barriga. Antes parecia que ele estava lá, apenas deveria ser ignorado a todo custo. Agora desaparecera completamente. Era como se fosse um término definitivo…

Até hoje Lúcia se pergunta o quão real pode ser apagar uma pessoa virtualmente, se ela subsiste em seus pensamentos, lembranças e sonhos. Era como se fosse um término definitivo… um dia sua vida, como uma personagem própria, tratará de fazê-lo verdadeiramente, como já fizera com seus antigos namorados. Lúcia ainda acreditava no amor, sabia que um dia poderia amar de novo, porém até então viveria nesse limbo transitório. Lúcia era uma mulher decidida.

Quando Lúcia apagou seu ex