Após 5 anos…

“Assim eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência. Talvez não entendas o que aí fica; talvez queiras uma coisa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho misterioso. Pois toma lá o embrulho misterioso.” Memórias Póstuma de Brás Cubas, capítulo LI. Machado de Assis.

Lembro que foi por volta do início do milênio, quando criei meus primeiros endereços de e-mail, época auge da internet gratuita no Brasil, quando se ofereciam CDs promocionais de internet instaladores de aplicativos para internet grátis (que no final viravam lixo puro). O sistema operacional mais usado era o Windows 98. Iniciava a era de criação de blogs gratuitos, em uma época onde não se existia redes sociais e a forma mais simples de se comunicar era o MSN Messenger ou o ICQ, quiça puramente os e-mails (que eram enviados por parentes como uma forma de falar mal do PT, dixavar piadas preconceituosas ou propagar correntes, muitas delas religiosas – sim, nada mudou, agora vigora a farsa). Criei meu primeiro blog, não me lembro exatamente o ano, mas eu postava basicamente imagens sobre bandas de rock e idiotices que se esperaria de um pré-adolescente de 12 ou 13 anos das regiões quase periféricas de São Paulo. Até então, a maioria dos blogs adolescentes eram assim, dado que não havia redes sociais, era a única forma das pessoas se relacionarem futilmente na internet, cada um criava sua página e tecia comentários nas páginas dos amiguinhos e amiguinhas. Até que mais tarde veio o Orkut  mudar essa realidade tomado por blogs e fotologs diversos em coexistência. Assim começou a massificação do uso da internet no Brasil.

Acredito que foi em 2007/2008, o que em minha mente pareciam ser muitos anos mais tarde, decidi criar um blog novamente, com uma cabeça de adolescente que estudava no CEFET-SP, antigo colégio técnico federal da região central de São Paulo, eu já tinha ideias e convicções mais intelectuais para tal propósito. Pensava na frase “Cogito, Ergo Sum” de Descartes, sendo que meu pensar seria um escrever, que justificaria minha existência perante o universo, já tinha me tornado um adolescente ateu, sob influência de livros de bolso mal traduzidos de Nietzsche, era minha diversão nas minhas longas horas livres de colégio-casa. Escrevia contos, posts aleatórios, poemas, publicava trabalhos de escola, em geral o tema era mais literário e eu aproveitava muito as proveitosas aulas de redação e literatura do colégio, no meu último ano eram cerca de oito aulas de redação e literatura por semana. Conteúdo e tempo não me faltavam. Porém, faltava a experiência de vida, consciência de classes e formação política e intelectual que a Universidade me proporcionou mais tarde.

Aí vieram reviravoltas da vida, tempos de cursinho, vestibular e enfim a Universidade, quando passei a cursar relações internacionais na USP. Em geral, acredito que a dialética aplicada à vida prova uma certa negação do passado, como dura antítese, em 2010 fui aos poucos negando meu passado e minha adolescência, para dar cara a  um Lucas de quase vinte anos, universitário e dedicado a outras tarefas, com uma nova visão de mundo. Abandonei o hábito de escrever em meu blog, de escrever em geral. Esse blog ficou largado pelos submundos da internet, que só quem escreveria meu singular nome no Google acharia. Um blog que era a cara de parte da minha adolescência. Todo meu tempo se ocupava com intermináveis textos que prometia ler integralmente, todos, mas que me frustrava com meio duzia deles por matéria, alguns dos quais eu jamais acabarei de ler. Toda minha expressão fora convertida a um academicismo. Em tempos de Facebook e Twitter minha produção se convertera a poucas palavras e imagens. Tornei-me um homem meme, mene, piadas e ideias mal digeridas em posts aleatórios e compartilhamentos. Desfiz-me em redes virtuais. Os grupos de e-mail foram dissolvidos, a esfera pública virtual dos estudantes de RI que me envolvi intensamente nesses 5 anos se tornou o Facebook por meio de comentários em grupos ou algumas iniciativas interessantes pontuais.

Atualmente sou a síntese de mim, de vários lucases misturados, que se negam e se sobrepõe, que se recriam e criam. Uma negação e restauração do que já fui. Sintética em uma pessoa infinita e limitada. Do Lucas adolescente, letrado, lutador de kung fu, revoltado, ateu de 17 anos, que se constrói com o Lucas universitário, dos textos, da vida universitária uspiana, ainda adolescente, de descoberta de um mundo político e emancipatório, assim como os jovens sonhadores do filme do Bertolucci, idealista, apaixonado, acadêmico e de um engajamento sobrevivente em uma vida universitária que se misturava a centro acadêmico e horas e horas de ônibus entre a Zona Norte e o Butantã. Entre indas e vindas, um intercâmbio na Itália, um estágio na prefeitura e um longo ano de 2014 eu me vi formado, com um vasto passado e um futuro jamais tão misterioso, lembrei das minhas antigas paixões. Percebi quanto tempo deixei de me expressar, que estava vivendo intensamente um mundo, uma fase de minha vida, que se acabara, que hoje sou um novo alguém em meio a tudo o que um dia já fui.

Lembrei-me do Lucas letrado da adolescência, lembrei dos textos, do prazer de escrever, de me expressar, do “Cogito, Ergo Sum”, do meu blog…, que tomei a decisão de apagar, como um último suspiro de negação do passado. Fui recogitando criar um novo blog, dividindo essa vontade, voltei a ler literatura, interessei-me pela prática do jornalismo, participei de encontros, cogitei escrever por dinheiro e até que finalmente o levei a sério. Fui atrás de oportunidades para escrever como freela como redator de Blogs, até que no primeiro “sim” que recebo, escrevi imediatamente um artigo para um blog babaca. Porém, quando envio o artigo, recebo um “já preenchemos todas vagas”. Sinto-me um idiota, com um artigo e sem ter onde postar. Automaticamente, sem pensar, crio este blog, como mostra a teoria das janelas de Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Novamente, após 5 anos, cogito ergo sum, escrevo logo existo.

Após 5 anos…