Carne e a Decadência da Revolução Industrial

Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão

Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel

Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, propícia estação
E fecundar o chão

O Cio da Terra – Milton Nascimento

Quando uma pessoa em sã consciência diz abertamente que não consome carne, automaticamente é tratada como estranha. Qual o problema de uma pessoa que prefere não comer carne? Seria esta pessoa incapaz de apreciar os prazeres da gastronomia padrão?

Como poucos parecem compreender, os seres humanos não nasceram naturalmente em grandes cidades abastecidas por uma quantidade infinita de carne a ser desfrutada a qualquer hora do dia, duas, três, quatro vezes ao dia, sem se preocupar com sua possível ausência a curto prazo.

Pode-se acabar a água numa iminente seca. Porém, em meio a uma crise hídrica de longas e graves proporções, os salgados plenamente recheados de presunto, as esfihas fechadas e os cachorros quentes não perdem seus ingredientes básicos. Pode-se lamentar e questionar toda degradação ambiental existente no mundo, o papel da bancada ruralista e a Kátia Abrel como ministra da agricultura, mas vigorarão nas grandes cidades longuíssimos banquetes de sushi sem limites. As churrascarias trabalharão com preços promocionais por todos os dias da semana. As grandes redes de fast food terão lanchonetes abertas 24 horas por dia, 7 dias por semana, com lucros recordes. Enquanto isso, os amigos e amigas se reunirão embriagados num fim de semana para celebrar a vida regada a muita cerveja de milho transgênico e carne assada até altas horas da noite.

Em uma hipotético estado de natureza, a carne é resultado da caça e da criação de animais em cativeiro, sabe-se pela bíblia que havia uma série de restrições para o consumo da carne nas antigas e primeiras civilizações do crescente fértil. Abater animais para o consumo era uma atividade digna de um ritual apropriado, onde uma quantidade grande dos habitantes da pequena região se reuniam para uma grande festa regada a muita bebida e entorpecentes. Uma época em que todo alimento era consumido nos recintos do lar, da comunidade, independente se trocado em um bar ou hospedaria local, como pode se observar em ruínas da roma antiga. Um outro fato a ser destacado seria o das primeiras civilizações terem surgido a partir da inovação que o cultivo em grande escala de alimentos advindos da terra proporcionou à humanidade. Pela primeira vez em toda história humana poderia ser possível sobreviver sem a necessidade de caçar, pescar ou matar seus animais domésticos para sobreviver. Seria possível se fartar de pão e outros grãos da terra sem morrer de fome. O que não significa que todo mundo teria virado vegetariano de um dia para o outro, apenas que surgiram novas possibilidades de sobrevivência em comunidades com um número inédito de pessoas, circundados por uma vida complexa, que envolvia poder, religião, escravos e uma ganância até antes jamais vista, como nos mostra a história egípcia e as dezenas de povos semíticos que habitaram a região da babilônia e da palestina, como bem ilustra o antigo testamento.

Sabe-se que a vida prosseguiu mais ou menos assim até o surgimento da revolução industrial. No Brasil, tal vida com excedente em carne industrial, produtos alimentícios industrializados fornecidos por grandes redes de super mercados é recente. Até a era getulista o Brasil ainda era tipicamente rural, com nossas cidades bastante reduzidas. Seria impossível conceber uma São Paulo de onze milhões de habitantes.

Tem-se que a revolução industrial subverteu as condições naturais de sobrevivência humana em uma estado natural de convivência e consumo. Consumo este destinado ao prazer gastronômico e à necessidade de sobrevivência com o ato de se nutrir. No entanto, em um mundo onde existe o déficit de alimentos, onde o problema da desnutrição, da fome e da desigualdade é recorrente. Temos o excesso por outra parte. Sabe-se que o consumo de carne nos EUA ultrapassa largamente o necessário para sobrevivência humana num x dado do tempo, o mesmo se repete no Brasil (1). O que ocorre é que a revolução industrial industrializou a carne como mercadoria. A vida animal, assim como a vida humana, tornou-se mera mercadoria. A grande diferença é que a vida animal passou a ser criada em cativeiro massificado, assim como os humanos possuem cidades, os animais passaram a ter suas próprias cidades, onde seriam criados, medicados e alimentado justamente para o abate em massa, com o fim de suprir um consumo humano excedente. Aves, porcos, bovinos, peixes, todos estão presentes misteriosamente nos mercados para serem comprados, a preços e qualidades diferentes. Existem aquelas carnes mais populares, outros mais caras com cortes especializados.

No Brasil o lulismo aumenta o salário mínimo, o que acarretou um maior poder de compra das classes populares, que passaram a ter mais acesso a carne e a bens de consumo alimentícios diversos (2). Temos que o poder das empresas alimentícias, assim como o poder do agronegócio nunca foi tão grande sob o “comunista” PT. A bancada ruralista só cresce, ao ponto de ganhar um ministério sob o segundo governo Dilma. Os lucros da Friboi, do grupo JBS, assim como o da Ambev, atingem níveis mais que alarmantes de lobby político, ao ponto de a câmara pedir a extinção do selo de transgênicos nos produtos. O PT combateu o problema da miséria e da pobreza em detrimento de uma expansão e fortalecimento do capitalismo. Não da reforma agrária.

De madrugada, vendo o leilão de bois e vacas, um produto, como muitas pessoas.

Segue-se que o nível de problemas de saúde ligados à má alimentação e a obesidade são crescentes no Brasil, nos EUA e no mundo da pobreza e da desigualdade internacionais (3). O que só prova as consequências desse quadro marcado por excesso de carnes, de um capitalismo fortalecido do agronegócio e das indústrias alimentícias. A indústria alimentícia e o agronegócio matam, muito. Uma grande parte da devastação ambiental é sim consequência desse modelo de produção e consumo. Não se pode falar em mudanças ambientais e conservar um modelo de produção de capital como este.

A educação não emancipadora mantém o status quo, o lobby político faz sua parte e la vita segue così. Acima de tudo, é preciso lutar pelo enfraquecimento dessas grandes indústrias, pela reforma agrária que quase nada avançou em todos os anos de PT. É fundamental que todo mundo tenha direito a cultivar a terra de maneira natural e ecológica, gerando frutos também a serem comercializados, porém de maneira natural, sem danos ao ambiente, de forma equilibrada, além disso, é preciso de uma educação alimentar emancipadora, onde as pessoas saibam a base da vida, da sobrevivência, que é o alimento, a boa saúde, aliada a exercícios físicos e saber cozinhar, o que é um ato libertador.

Dialeticamente falando, não precisamos abandonar todos os avanços gerados pela revolução industrial e o capital. Não precisamos viver num mundo de fome e escassez, mas que saibamos negar a decadência dessa revolução industrial e que passemos a construir um novo modo de produção pautado pela real emancipação humana e animal harmonicamente. Logo, se alguém disser que prefere não comer carne, é porque ela conhece motivos suficientes para saber reduzir o seu consumo de carne para o mínimo possível em uma sociedade com todos esses fatos dados.

P.S: presunto não é carne, caro balconista do boteco.

(1)  http://chartsbin.com/view/12730

(2) Aumento do consume de carnes no Brasil http://www.epagri.sc.gov.br/?page_id=6484

(3) http://www.endocrino.org.br/numeros-da-obesidade-no-brasil/

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