Em tempos de crise: Akira (1988) – Katsuhiro Otomo

Em 1988 Tóquio é destruída por uma hecatombe nuclear. Em 2019, 31 anos mais tarde, Neo Tóquio está prestes a receber os jogos olímpicos de 2020. Enquanto isso, milhares de estudantes estão nas ruas protestando contra as crises econômicas e políticas do Japão, num cenário distópico de repressão, militarização e banditismo em gangues. É neste contexto que se inserem os amigos Tetsuo e Kaneda, membros da mesma gangue de motocicletas, “Os Cápsulas”. Kaneda possui a melhor motocicleta, donde vem a imagem mais famosa da animação, com Kaneda usando sua jaqueta vermelha de cápsula em uma moto plena de adesivos, entre eles o da força área americana (o mesmo dos aviões que bombardeavam o Japão) e o da empresa Canon.

Assim como o drama japonês Evangelion, que também retrata uma Tóquio devastada no início do século XXI ocidental, Akira também é protagonizada por jovens adolescentes, vítimas de um mundo cujo futuro é incerto. É um misto de ingenuidade, sonho, esperança por sobrevivência, ou pela criação de um futuro possível, algo que se reserva especialmente à esta fase dos primeiros anos de juventude.

Escrito e dirigido por Katsuhiro Otomo, o drama é baseado no manga homônimo, que a princípio não tinha intenção de se tornar uma animação e foi finalizado dois anos mais tarde em 1990. Akira não desperdiça cenas realistas de mortes cheias de detalhes, especialmente quando personagens são baleadas após uma cena de dialogo e caem sangrando de maneira muito verossímil. Uma animação que muito bem retrata o ponto final da vida após uma bala na face. Certas vezes as personagens prosseguem agonizando no chão. Jovens em protesto podem ser derrubados de uma ponte em poucos segundos, com detalhes especiais para suas tentativas frustradas de escalarem a ponte desmoronando em uma tentativa frustrada e natural que todos possuem pela sobrevivência.

Os detalhes e a verossimilhança estão em sintonia com a fantasia. Como típico das animações japonesas, prédios imensos desmoronam aos montes de uma só vez. Grupos de milhares de jovens são devastados de uma só vez por acontecimentos de altas magnitudes. Os detalhes das pedras e vidros caindo em cima da multidão podem gerar calafrios. A fragilidade de um corpo vivo caindo de uma moto se torna causa para muitos graves ferimentos, cada soco ou pontapé causa um dano específico claro nas personagens, ao mesmo tempo em que jovens super poderosos conseguem manipular grandes armas a laser enquanto dirigem motocicletas e fogem de explosões atômicas. É o realismo fantástico comum das animações japonesas.

Akira não poderia deixar de passar sem um romance assexuado entre dois adolescentes, no caso, Kaneda e Kei, uma adolescente que surge no decorrer da história e se torna uma importante protagonista, assim como Tetsuo e Kaori seguem a mesma linha (ambos amigos adolescentes passam a travar uma relação antagônica ao longo da história). As questões políticas e o diálogo entre a razão da ciência e o pragmatismo de um militar são colocados em confronto todo o tempo através da figura do coronel Shikishima e o doutor Onishi. Existe um plano de fundo político, descrito por TVs deixadas ligadas em cenas. Nada como a boa e velha mídia tradicional para descrever a  percepção das personagens, que se confronta com a realidade de fato, da repressão e dos protestos de estudantes, carregando bandeiras vermelhas e cartazes. As cenas da delegacia de policia após o protesto e das bombas de gás em meio à repressão é algo a ser observado com cautela, pois demonstram um realismo singular, especialmente após o Brasil de 2013. Outro destaque são os diálogos travados entre o coronel e as forças políticas do Japão, em constante embate. Política, poder e o pragmatismo da ação colocados em confronto.

A animação quando assistida em japonês se torna uma experiência rica, apesar de complicar o andamento e o entendimento da história, dado que é fundamental estar atento às legendas em uma língua tão difícil e diferente da nossa, num filme pleno de detalhes e explicações contadas através de metáforas e pela metade, em seu desenvolvimento, como é típico das animações nipônicas. Frequentemente nos deparamos com um enredo que atinge novas proporções em poucos segundos, deixando-nos confusos, em meio a longuíssimas e típicas cenas de ação. Não podemos esquecer que se trata de uma animação adaptada do manga, como de costume.

Vê-se todo tempo o fantasma da bomba atômica, que explode em 1988 numa suposta terceira guerra mundial e volta a ser uma ameaça séria ao longo da história. Isso somado a monstros terríveis consequentes das radiações e experimentos científicos, como se pode dizer sobre o Godzila nos anos 50. A história é repleta de explosões, destruição e alusões a possíveis apocalipses.

Temos um Brasil de ano pré-olímpico, onde é comum a repressão policial, os recordes de assassinatos a jovens, especialmente os negros das periferias. Um Brasil da desesperança política, da crise, do golpismo e do ódio. Em tempos de fundamentalismo religioso e da alienação em formas irracionais de explicação da vida. Numa realidade de corrupção, interesses lobistas, baixa legitimidade democrática, baixa participação, grupos oligarcas e baixa crença nas instituições e partidos. Tudo isso somado a um caldo emancipador de tomada de consciência coletiva, onde negros e LGBTs lutam por suas emancipações, novas formas de contestação surgem, onde a internet passa a ser um meio útil e necessário de articulação e sobrevivência política na esfera pública, cultural e comunicativa da sociedade atual. Akira, aproximadamente trinta anos depois, não descreve somente uma Tóquio distópica em ano pré-olímpico, mas representa muito um Brasil de 2015, com seus monstros, com suas próprias bombas atômicas prestes a explodir, com suas tragédias, seu apocalipse próprio, repressão, a ganância por poder e todas desvirtuações de nossa sociedade atual. Akira é um filme a ser por ora visto, encaixando-se como uma luva em tempos de crise, tão sombrios.

Akira – Katsuhiro Otomo
Duração: 121 minutos
Língua: Japonês
Lançamento: 16 de Julho de 1988.

Em tempos de crise: Akira (1988) – Katsuhiro Otomo

Heima. Sigur Rós, 2006. Um ao vivo em Pompeia nos tempos atuais.

Artigo que escrevi como freela pra um blog aleatório que me requisitou, mas que rejeitou quando eu enviei.

Trailer:

No verão de 2006 a banda islandesa de post-rock Sigur Rós percorreu seu país para um tour musical em diversas localidades da ilha e optou por gravar um documentário musical sobre a misteriosa e pouco conhecida Islândia, com apresentações não anunciadas e intimistas em pequenas vilas.

O filme-documentário-musical se chama Heima, que em islandês significa “em casa”.

As imagens são surpreendentes, mostrando que a Islândia é muito mais que uma ilha localizada acima da Grã-Bretanha e abaixo da Groenlândia, colonizada por vikings no século IX e povoada por cerca de 300.000 habitantes, que falam uma variação antiga das línguas escandinavas.

O documentário é marcado por imagens intimistas e impressionantes sobre a Islândia. Paisagens gélidas e montanhosas, juntamente de uma trilha sonora marcadamente hipnotizante tocada ao vivo pela banda para um público seleto de habitantes da ilha. Gramados verdejantes e ruínas são cenários para gravações épicas, contando com dezenas de participantes locais, que parecem se integrar à banda ao longo das gravações, seja tocando instrumentos ou apenas assistindo.

Para além da música, o documentário é extremamente rico no que se refere à fotografia, tanto das paisagens, quanto das apresentações da banda, pleno de delicadeza nos detalhes. Para quem gosta de rock-progressivo, poderá relembrar do lendário ao vivo em Pompeia, gravado pelo Pink Floyd nos anos 70.

O documentário conta também com pequenas entrevistas em inglês feitas com os membros da banda, sobre as motivações de fazer esses concertos interventivos ao longo da ilha. Ao todo são 94 minutos muito bem investidos, onde se pode conhecer paisagens exuberantes de uma misteriosa e remota ilha ao som de uma bela música cantada em uma língua totalmente desconhecida aos ouvidos brasileiros.

Confira aqui algumas cenas encontradas no YouTube:

Heima. Sigur Rós, 2006. Um ao vivo em Pompeia nos tempos atuais.