Quando você viaja?

-Quando você viaja?
-[data]
-Pô, legal, tá chegando, né?
-É verdade…
-Até lá precisamos nos ver, hein?
-Pô, com certeza vamos nos trombar até lá.
-Vai ter despedida?
-Pô, claro, ainda não pensei nisso, mas vai sim.
-Da hora, vamos marcar…
-É [páis], né?
-Sim, [cidade].
-Nossa, que beleza lá, né? Parabéns, aproveita.
-Sim, eu vou…

Quando você viaja?

Formação em Cidadania Ativa e Acesso à Informação

Em tempos nebulosos da política nacional, marcados pela extinção da Controladoria Geral da União (CGU) e pela incerteza de um governo interino não legitimado pelo voto popular. É importante que os governos progressistas inseridos no plano municipal valorizem políticas e práticas de Governo Aberto, condizentes com a Lei de Acesso à Informação e as melhores práticas de Controle Social, Transparência e Participação na gestão pública.

É no plano municipal que o cidadão possui acesso mais aproximado às diferentes formas de fazer política e contribuir diretamente com mudanças no espaço onde vive e se insere. E é no plano municipal que se encontra a iniciativa da São Paulo Aberta de compor ciclos de Formação em Governo Aberto, onde agentes escolhidos por meio de um edital público são responsabilizados por darem oficinas sobre práticas de governo aberto na cidade, segundo projetos elaborados pelos próprios agentes. Portanto, não se trata somente de oficinas dadas pelo poder público, mas de oficinas dadas por agentes de formação que se utilizam do poder público para empoderarem cidadãos.

Seguindo a perspectiva de que é necessário fomentar na cidadania brasileira a cultura em governo aberto, algo inédito para nossas poucas décadas de democracia ainda deficitária. As oficinas de Formação em Cidadania Ativa e Acesso à Informação buscam cumprir um papel de agir diretamente no fomento da cultura de governo aberto, participação popular, transparência, controle social e uso das ferramentes da Lei de Acesso à Informação1. Sendo assim, tais oficinas tem um objetivo emancipatório para cidadania, com um público-alvo geral, composto por: estudantes, gestores públicos e diferentes conselheiros municipais. Tem-se como base pedagógica a freiriana, de estímulo ao debate e formação de um raciocínio crítico frente aos diferentes temas relacionados ao Acesso à Informação e participação popular por meio da cidadania ativa.

No total são quatro oficinas diferentes. A primeira delas, com o tema Cidadania Ativa, busca destrinchar o tema “cidadania”, e explicitar o seu viés ativo, tratando de temas básicos da ciência política e teoria geral do estado. Temas como república, democracia, Constituição Federal de 88, divisão de poderes, federalismo, direitos fundamentais, direitos humanos serão os temas chave que guiarão o debate. A oficina será dividida em duas partes, sendo a primeira um debate expositivo facilitado pelo agente, seguindo os temas supracitados sobre cidadania ativa. Na segunda parte será realizada um debate entre os presentes, envolvendo temas recentes, participação e problemas atuais da cidadania brasileira.

A segunda oficina, com o tema Controle Social, vai dialogar mais afundo com temas referentes à democracia brasileira e sobre como o cidadão pode realizar o controle social das políticas públicas. Assim sendo, assume-se como princípio o termo tirado da ciência política accoutability e daí por diante passa-se a discutir medidas de combate à corrupção. Serão destacado, no plano municipal, os conselhos representativos, a CGM e seus órgãos, a divisão e organização da gestão, como sua divisão em subprefeituras, autarquias e secretarias. Além disso busca-se apresentar os diferentes portais da prefeitura, da CGM e também o plano de metas. Na segunda parte também serão formuladas questões que busquem guiar um debate sobre controle social e combate à corrupção entre os presentes, contando com temas atuais e relevantes.

A terceira oficina debruçará sobre o tema Transparência, entrando a fundo nas diferentes formas que o poder público pode ser transparente e abrir seus dados. Portanto, busca-se diferenciar a transparência em passiva e ativa. Sendo assim, será introduzida a Lei de Acesso à informação e as diferentes formas de se atingir a transparência e os dados abertos. Serão dados exemplos tirados diretamente do Portal da Transparência e dos diferentes portais que o poder público brasileiro oferece, com destaque para o plano municipal.

A quarta é última oficina será sobre a Lei de Acesso à Informação. Baseando-se muito no trabalho executado pela Coordenadoria de Promoção da Integridade (COPI) da CGM, pretende-se dar oficinas sobre como executar o próprio pedido de informação de maneira eficiente através do sistema e-sic, além de utilizar o Portal da Transparência e outros mecanismo de acesso à informação de maneira mais avançada. Tais oficinas podem ser dadas para públicos específicos, como servidores do município responsáveis por respondem os pedidos de informação. O público será instigado a simular eventos reais de acesso à informação que tenham a ver com a realidade em que estão inseridos no município, seu bairro e região. Assim, ao longo da oficina os presentes terão que formular o próprio pedido de informação, que será oficialmente inserido no sistema e-sic. Serão analisados pedidos respondidos e verificaremos os possíveis defeitos e maneiras de se aprimorar o pedido de informação.

Serão realizadas oficinas sobre cidadania para conselheiros da saúde, uma parceria entre a Secretaria Municipal de Saúde e a São Paulo Aberta. Além disso, oficinas temáticas sobre a Lei de Acesso à Informação serão dadas aos servidores das diferentes subprefeituras interessadas, através de uma parceria com a Coordenaria de Promoção de Integridade da CGM. Essas oficinas destinadas às subprefeituras tem o intúito de contribuir com o aumento da qualidade dos pedidos de informação respondidos no município de São Paulo. Busca-se também abrir parcerias com organizações da sociedade civil interessadas em receber tais oficinas, como entidades educacionais, a exemplo da Escola de Governo, atualmente localizada na Ação Educativa, de onde se tirou parte da inspiração para fomentar as oficinas de educação em Cidadania Ativa.

1Lei 12.527/2011.

Formação em Cidadania Ativa e Acesso à Informação

Haikais Paulistanos

Concessionária da Maserati
Vida curta pra ter
Exposta luta de classes

Internet lenta
Tempo perdido
Paciência esquenta

Domingo a noite
Central de levendas
Trabalhando sem parar

Baseado incenso
Música queima
Prazer mental

Tarde de outono
São Paulo buzina
Bermuda moletom

Haikai curto
Tempo curto
Composição curta

Sem trabalho
Trabalho muito
Descanso sempre

Avenida Paulista
Carro gente bike metrô
Prédios bancos lojas

Praça Roosevelt, gente
Escada praça skate
Baseado teatro cerveja

Largo do Paissandu
Ponto chique grego
Igreja, galerias, trackers

Começo de noite
Trânsito intenso
Cidade alerta

Haikais Paulistanos

ANTI – Rihanna entre o drama e a ousadia

I can just hear them now
“How could you let us down?”
But they don’t know what I felt
Or see it from this way around
Feeling it overtake
All that I used to hate
Wonder what if we trade
I tried but it’s way too late
All the slides I don’t read
Two sides of me can’t agree
When I breathe in too deep
Going with what I always longed for
-Rihanna, Same Ol’ Mistakes (Tame Impala Cover)

Há meses circulava pela internet que em breve Rihanna voltaria com seu novo álbum, ANTI, que já tinha até capa divulgada, uma foto da Rihanna em seus idos de infância na ilha de Barbados, em uma fotomontagem em braile, usando uma coroa dourada. Com um recente sucesso seguido de “Bitch better have my money”, “American Oxygem” e “FourFiveSeconds”, em parceria com Paul McCartney e Kanye West. Muito se especulava sobre seus novos singles, divulgados até então, se fariam parte do novo álbum ANTI. O que pode ser confirmado na madrugada de quinta-feira, dia 28, Rihanna teria lançado seu novo álbum ANTI na plataforma Tidal e continha um cover de “New person, same old mistakes (Same Ol’ Mistakes pra Rihannna)” do mais novo disco do Tame Impala, Currents, lançado ano passado.

Em geral, pode-se dizer que a grande genialidade por trás de tudo foi a da produtora executiva Rihanna. Após o lançamento de Unapologetic, Riri assina com a gravadora de Jay Z, Roc Nation e em Outubro de 2015 anuncia que tinha comprado todas as masters de suas gravações e que criaria sua própria gravadora, Westbury Road. Essa maior independência com relação a gravadoras cria um bom ambiente para Rihanna lançar seu oitavo álbum. Ainda em 2015 assina um contrato com a Samsung de 25 milhões de dólares, Rihanna deveria fazer propaganda para empresa, em troca de uma boa divulgação de seu mais novo álbum. De início, Kanye West se diz abertamente produtor executivo de ANTI, em uma entrevista to tapete vermelho do Grammy, nos idos de FourFiveSeconds. Porém, apenas em Janeiro de 2016, mês de lançamento do álbum, para um fã no twitter, Rihanna anuncia que ele não fazia mais parte da produção do álbum, na produção final do álbum não contém seu nome como produtor.

Cover
Rihanna – ANTI. O primeiro grande álbum de 2016. Capa desenhado por Roy Nachum, com um poema em braile sobre a voz, pelo próprio Nachum e Chloe Mitchell, designer também de Kanye West. 

Após o surgimento de ANTI no Tidal, Riri passa a fazer sua divulgação oficial através de suas páginas no Instagram e no Twitter, disponibilizando um código oficial para o download do álbum. Mais tarde é anunciada a versão ‘deluxe’ com mais três faixas adicionais.

twitter

Em seu twitter Rihanna anuncia que os acessos ao ANTI no Tidal já teriam ultrapassado 1 milhão em menos de 15 horas. Pouco depois, Riri anuncia que o álbum já fora condecorado com o selo ‘platinum’, pela associação das gravadoras dos EUA.

ANTI tem uma música em colaboração com Drake ‘Work’, single lançado um pouco antes do ANTI, com quem a artista já fizera sua famosa ‘What’s My Name‘ e porque não dizer também ‘Take Care’.

Em uma primeira impressão pode-se ver que são 13 faixas, sendo Same Ol’ Mistakes a nona faixa e Work a quarta. Só a faixa “Woo” tem a participação de cinco grandes produtores The-Dream, Weeknd, Travis Scott, Kuk Harrel e Hit-Boy. A faixa “Yeah, I Said” é produzida pelo já conhecido Timbaland. Em geral a maioria das faixas tem a mão de Kuk Harrel, encarregado de produzir a voz da cantora, um cara fodão que sempre esteve por trás da carreira de Rihanna e muitos outros grandes da indústria pop americana (veja a lista completa de faixas por produtores aqui).

Após as primeiras e não maduras vezes que se pode ouvir o ANTI, vê-se claramente que a Rihanna conseguiu fazer um álbum muito distante do tradicional pop mercadológico, com refrões dançantes típicos de EDM, o som das rádios pop. Rihanna vem sem hits, sem Diamonds, sem We Found Love, mais ousada, mais autoral, com baixos bem graves e sintetizadores de timbres mais conceituais. Rihanna começa o disco falando da malandragem da vida sedutora e do consumo de ervas, como na deliciosa segunda faixa, James Joint, “I’d rather be smoking weed, whenever we breath, any time you kiss me, don’t say that you miss, just come get me…”. ANTI é um disco para fim de festa, fim de tarde, depois do chá.

Após a nona faixa “Same Ol’ Mistakes” temos mais quatro, já tradicionais, músicas dramáticas, como visto em sua mais recente apresentação no Rock in Rio. Entre elas, “Love on the brain” nos faz recordar Amy Winehouse, em um vocal ácido e uma melodia triste, “Higher” seria uma contra “Love on the brain” chapada. ANTI apresenta ousadia misturada a drama do coração, bem como Unapologetic (2012) e sua bela faixa “Stay”. Ou seja, mostra-se um trabalho muito autoral de Rihanna, apoiada por produtores de primeira linha do que o pop tem de melhor, sem perder as já tradicionais influências em seu trabalho, do soul, reggae e hip hop. Rihanna continua sua boa trajetória e poderia dizer que subiu um degrau em sua carreira como artista em ANTI, ao fugir do pop tradicional, um anti-álbum em sua carreira, que pode ficar com o que Rihanna fez de melhor até então.

Rihanna – ANTI (2016).
Selo: Westbury Road
Produção: Rihanna
Faixas: 13, Deluxe 16.
Duração: 43:36

 

 

 

 

 

 

ANTI – Rihanna entre o drama e a ousadia

Notas de Budapeste

Encarava a janela do trem com um frio inexplicável, provavelmente vira Ana Luisa em algum outro vagão, mas preferira não encará-la nesta tarde.

Já fazia um tempo que decidira fazer esta viagem, sair dos subúrbios de Budapeste um pouco. Mal se acostumava com a ideia de morar na Hungria, já era hora de conhecer os confins do país para além de sua capital.

A neblina cobria tudo em volta, talvez tivesse se vestido de maneira apropriada caso não tivesse sido enganado pelo sol da manhã. Foi um dia cheio, tivera já três reuniões pela manhã, uma delas com seu professor orientador. Neste meio tempo, tivera tempo de tomar um café da manhã saboroso. Sentiu a doçura das pequenas ruas plenas de jardins pelas quais cruzou horas antes. O inverno se aproximava, talvez essas seriam as últimas luzes do sol que viria tão cedo.

Sabia que o trem sairia às 14h em ponto, seria o suficiente para uma viagem curta. Talvez voltasse no mesmo dia ainda. Tivera tempo de se planejar e se esforçara para chegar cedo o suficiente na estação mais próxima. Não conhecia nada na Hungria, nem muito menos sabia falar húngaro. Comunicar-se naquele lugar talvez fosse uma das atividades mais engraçadas em seu cotidiano.

Tinha poucos amigos por lá, sabia que eles planejavam semelhante viagem. Entre elas estava Ana Luisa, uma brasileira engraçada, extrovertida e excêntrica. Era uma moça alta, encorpada e loira,  de cabelos curtos, deveria ter quase uns trinta anos. Achava-a um pouco incômoda talvez. Lembrava-se que quando a conhecera ela comentava o quanto sabia falar bem alemão e sobre como era fácil para ela se comunicar em Budapeste com tantos dons linguísticos adquiridos.

Em sua manhã agitada não tivera tempo o suficiente para almoçar, dirigiu-se à estação antes das 14h apenas pelo prazer de sentar e observar a estação vazia que se encontrava. Podia ver o trilho do trem, as últimas luzes do sol do meio dia iluminar o verde dos arbustos atrás de si.

Vestia um tênis confortável, carregava consigo uma mochila que continha um estojo cheio de canetas, uma lapiseira e uma borracha. Levava alguns livros, uma revista, garrafa de água, carteira e um fone de ouvido. Afinal, era incapaz de sair de casa sem um fone de ouvido, a vida era entediante demais para não ser preenchida com o som das músicas. Ainda questionava a opção por não usar mais drogas alucinógenas, talvez distorcer a realidade fosse a melhor saída para muitas situações de descobertas pessoais. Afinal, era a realidade que se distorcia em sua mente ou a realidade que era naturalmente distorcida que se ajeitaria afinal?

Usara do tempo para escapar de suas preocupações, em breve seria já 14h, percebia que o sol ia se afastando e se via sozinho e com frio. Não sabia porque, mas naquele dia de menos de 20 graus do outono ele vestira bermuda e camiseta curta. Sabia que, de alguma forma, o calor permaneceria e poderia usufruir das luzes do sol por toda uma jornada.

Finalmente, a tempo do trem chegar, a estação vazia se preenchia toda com uma neblina. Sentia-se só, no meio de toda aquela neblina. Era incapaz até de enxergar o arbusto que via iluminado há ainda menos de meia hora. Distraia-se.

Era já 14h e via o trem parando pela estação e as pessoas entrando. Era esse o trem que deveria pegar. Não entrara. Ficara lá na neblina, apenas a observar o movimento quase nulo. Não via uma alma viva além dele naquele pequeno banco de concreto estacionado próximo aos trilhos do antigo trem que parava.

Ficara lá. Inerte. O trem partiria e surgiria uma dúvida, ir ou não viajar neste dia frio e nebuloso? Teria algum próximo trem para ser pego além deste? Mirava a placa com os horários de partida, talvez viria alguma alternativa próxima em menos de 45 minutos. Decidira esquecer-se totalmente do frio. Talvez no trem seria capaz de escrever em seu caderno todas as suas atividades, a fim de que nada fosse passado em branco. Ir ou não viajar hoje?

Afinal, já não tinha lugar nenhum para ir, nada mais a ser feito, estava em um país longínquo, sozinho e sem alternativas. Decidira ficar naquele mundaréu branco e esfumaçado. Passava-se o tempo.

De longe via as lanternas e o barulho de algum trem chegando, não sabia ao certo se esse seria o seu, mas entraria assim que as portas se abrissem. Era um trem antigo como os outros, via que os assentos estavam rasgados, num azul acinzentado. Alguns bancos antigos tinham sido substituídos por outros de cor marrom. Sentara próximo à janela. Tinham quatro acentos vagos próximo a ele. O trem inteiro estava praticamente vazio. Não sabia para onde ia e não ligava. De alguma forma chegaria à algum destino.

Sentara sozinho, com sua bermuda jeans e sua camiseta roxa. Miraria a janela por horas, não tinha vontade nem de ouvir músicas, talvez a canção do dia seria o barulho das poucas pessoas distantes conversando. Sua tarde fria teria como trilha sonora o barulho de um trem em movimento sob trilhos, parando de estação em estação, até um destino incerto.

De longe podia ouvir as conversas de Ana Luisa, falava em português alto e incômodo. Esperava que talvez ela não o visse. Pelo menos sabia que estava indo para o lugar certo, já que sua presença acusava o destino de uma viagem socialmente planejada por brasileiros perdidos no mundo, em um lugar novo.

Ainda não estava plenamente confortável com a situação quando ela se aproximara dele, falando alto e acompanhada de uma amiga bem magra e baixa, de cabelos escuros. Ana Luisa o cumprimentou como de espanto por vê-lo ali antes, como estariam todos eles indo para o mesmo lugar nessa tarde? Como talvez fariam para voltar desse destino ainda a tempo para dormir em Budapeste? Falava e falava, porém não se sentava próximo a ele. Sentia um grave incômodo e conforto com sua companhia, mas nada faria para continuar sozinho no restante do tempo, talvez fosse caso de aceitar sua presença ali e prosseguir viagem. Ela vestia uma camiseta azul claro e usava um jeans surrado enquanto carregava uma pequena mochila preta. Talvez ela seria mais legal do que imaginara.

Notas de Budapeste

São Paulo, Sociedade Anônima

Não ousou falar da dor, do passado, ou do presente. Ousou apenas sorrir, manter as aparências de normalidade. Ignorou os fatos e pôs-se a abrir uma garrafa longneck. A vida sempre continua, mesmo que recomeçar seja um ato cotidiano e vazio. Sequer fingiu existir um pingo de tristeza e de melancolia naquele olhar. Depois de um tempo bebendo, deixou que palavras dispersas fossem desabafadas de vez em quando, no dia seguinte que se dera conta. Mas o que vigorava era uma alegria, uma alegria falsa e necessária aos fins de semana. Sair com amigos é um ato de reafirmar sua existência social. Dar risadas, dançar e nem lembrar quais foram as músicas daquela noite, é um rota de fuga. Selecionar o lugar onde estar e com quem também é um ato político, de uma vida social que mais parece um quebra-cabeças impossível de ser terminado.

Estava de saco cheio de tudo, mas nem evaporar era algo possível, não há alternativas viáveis e serem preenchidas além daquele papel de si mesmo no teatro da existência. Às vezes sentia-se figurante da própria vida, onde tudo que fazia era ouvir músicas e chapar-se sem fim. Em tempos de depressão social, nem o papel de cidadão político é um sentido. Num limite de 50km/h diria com um cigarro pela janela, sem saber ao certo para onde ia, continuava assim, sem rumo, sem rotina, nem ao mesmo saberia onde estacionar esse carro, se é que faria sentido estacioná-lo. Muitas vezes saímos sem saber para onde ao certo. E ônibus e o metrô eram janelas para existência, túneis e pontos eram meros meios para fins desconhecidos.

The ghoulish entities they come floating through the walls.
Ghostly enemies they come floating through you door.

I gotta find peace of mind.

As figuras da vida social lembram a câmara dos deputados, é preciso escolher um partido, ou muitas vezes terminaremos na bancada da bala, ou pior, na evangélica. Às vezes sentia-se um “sem-partido”, como se fosse um pivô do ódio e do amor, sem saber para que lado olhar direito. Pelo menos na escola, sempre soube direito em qual lugar sentar. No fim sentia-se traído pela ilusão. Mesmo que dialeticamente lhe parecesse real por um tempo. Os olhos que um dia afagam, no outro te apunhalam pelas costas, deixando-te nua sobre as olhos de todos, com todos seus erros e defeitos para serem apontados e julgados perante a sociedade da moral e perfeição militante.

Dichavava tudo, enchia com água fresca e acendia. Os sons nem a solidão seriam os mesmos, pelo menos por um tempo. Fumaria a vida e todo o seu tédio, num êxtase parcial. Talvez fizesse algo naquela tarde, além de comer. O isolamento é um posicionamento político, ou se isolar com quem? Decidia se isolar de todo mundo que quisesse, não precisava de nada além disso. No fim não estava sozinho e nem sozinha.

Fumava seu papel de trouxa, fumava o passado, o presente e o futuro, numa ordem dialética contraditória. Fumaria a ferida de suas apunhaladas e iria rir disso. No filme se lembrava, recomeçar, mil vezes recomeçar, recomeçar de novo, recomeçar sempre, esquecer.

A vida e sua luta contra a reificação, apegando-se aos mínimos detalhes dramáticos se sentia viva, vivo, num êxtase. E assim, somos humanos, demasiados humanos. Esquecer Ana, apagar Luciana, lembrar das 500 obrigações do trabalho, mil vezes tentar ser um homem, recomeçar, aceitar, trabalhar, aceitar, uma engrenagem, depois um eixo deve ser entregue num prazo estabelecido…

São Paulo, Sociedade Anônima

Sobre o 11 de Setembro e a cronologia cíclica

Todos os anos são iguais. As pessoas postam algo nas redes sobre o golpe em Allende no Chile, o atentado às torres gêmeas e a independência da Catalunha. Repetidamente, as mesmas pessoas, todos os anos. O que é algo super apreciável, há dois anos eu passei o dia todo assistindo, lendo e compartilhando sobre o Allende no Facebook. Aquele exército de militantes virtuais desocupados, eu posso ser um deles nessa esfera pública virtual.

11 de Setembro é uma data mais significativa que o natal, por exemplo. Mas se repete como se fosse um ciclo nas redes sociais, todos os anos. Na vida temo em ser repetitivo nos anos seguintes. Muitas vezes me peguei ouvindo Pink Floyd pelas primaveras, ano após ano. Mas desapeguei, posso ouvir Pink Floyd quando der vontade, não importa o mês, não vale nem se for coincidência.

Podiam fazer um feriado em 11 de setembro. Cada qual relembra sua tragédia favorita, com o intuito de fortalecer uma luta legítima. Um feriado pra todas as datas trágicas em que a humanidade oprimiu e matou alguém, um número muito grande de inocentes. Podiam banir o natal e substituir pelo 11 de Setembro, seria muito mais moderno e verossímil. “O dia em que a humanidade sucumbiu à opressão”, poderíamos dizer.

Tem também aqueles que tentam lembrar o que eles fizeram no 11 de setembro anterior, ou que viram o atentado na TV antes de ir pra escola, ou que eram crianças quando Allende e o Chile caíram. Tem os milhares de catalães que saem às ruas lembrando o dia que foram dominados pela Espanha no século XVIII. Neste ano resolvi lembrar que estava em Londres há dois anos, visitando o túmulo de Karl Marx e Eric Hobsbawm.

Quantos 11 de Setembros não existem aí pelos calendários? E a data de quando a humanidade lutou bravamente contra a opressão e venceu? Vivemos uma vida calendarizada, cíclica, dialética, porém líquida e o eterno retorno é uma ilusão.

Sobre o 11 de Setembro e a cronologia cíclica