Notas de Budapeste

Encarava a janela do trem com um frio inexplicável, provavelmente vira Ana Luisa em algum outro vagão, mas preferira não encará-la nesta tarde.

Já fazia um tempo que decidira fazer esta viagem, sair dos subúrbios de Budapeste um pouco. Mal se acostumava com a ideia de morar na Hungria, já era hora de conhecer os confins do país para além de sua capital.

A neblina cobria tudo em volta, talvez tivesse se vestido de maneira apropriada caso não tivesse sido enganado pelo sol da manhã. Foi um dia cheio, tivera já três reuniões pela manhã, uma delas com seu professor orientador. Neste meio tempo, tivera tempo de tomar um café da manhã saboroso. Sentiu a doçura das pequenas ruas plenas de jardins pelas quais cruzou horas antes. O inverno se aproximava, talvez essas seriam as últimas luzes do sol que viria tão cedo.

Sabia que o trem sairia às 14h em ponto, seria o suficiente para uma viagem curta. Talvez voltasse no mesmo dia ainda. Tivera tempo de se planejar e se esforçara para chegar cedo o suficiente na estação mais próxima. Não conhecia nada na Hungria, nem muito menos sabia falar húngaro. Comunicar-se naquele lugar talvez fosse uma das atividades mais engraçadas em seu cotidiano.

Tinha poucos amigos por lá, sabia que eles planejavam semelhante viagem. Entre elas estava Ana Luisa, uma brasileira engraçada, extrovertida e excêntrica. Era uma moça alta, encorpada e loira,  de cabelos curtos, deveria ter quase uns trinta anos. Achava-a um pouco incômoda talvez. Lembrava-se que quando a conhecera ela comentava o quanto sabia falar bem alemão e sobre como era fácil para ela se comunicar em Budapeste com tantos dons linguísticos adquiridos.

Em sua manhã agitada não tivera tempo o suficiente para almoçar, dirigiu-se à estação antes das 14h apenas pelo prazer de sentar e observar a estação vazia que se encontrava. Podia ver o trilho do trem, as últimas luzes do sol do meio dia iluminar o verde dos arbustos atrás de si.

Vestia um tênis confortável, carregava consigo uma mochila que continha um estojo cheio de canetas, uma lapiseira e uma borracha. Levava alguns livros, uma revista, garrafa de água, carteira e um fone de ouvido. Afinal, era incapaz de sair de casa sem um fone de ouvido, a vida era entediante demais para não ser preenchida com o som das músicas. Ainda questionava a opção por não usar mais drogas alucinógenas, talvez distorcer a realidade fosse a melhor saída para muitas situações de descobertas pessoais. Afinal, era a realidade que se distorcia em sua mente ou a realidade que era naturalmente distorcida que se ajeitaria afinal?

Usara do tempo para escapar de suas preocupações, em breve seria já 14h, percebia que o sol ia se afastando e se via sozinho e com frio. Não sabia porque, mas naquele dia de menos de 20 graus do outono ele vestira bermuda e camiseta curta. Sabia que, de alguma forma, o calor permaneceria e poderia usufruir das luzes do sol por toda uma jornada.

Finalmente, a tempo do trem chegar, a estação vazia se preenchia toda com uma neblina. Sentia-se só, no meio de toda aquela neblina. Era incapaz até de enxergar o arbusto que via iluminado há ainda menos de meia hora. Distraia-se.

Era já 14h e via o trem parando pela estação e as pessoas entrando. Era esse o trem que deveria pegar. Não entrara. Ficara lá na neblina, apenas a observar o movimento quase nulo. Não via uma alma viva além dele naquele pequeno banco de concreto estacionado próximo aos trilhos do antigo trem que parava.

Ficara lá. Inerte. O trem partiria e surgiria uma dúvida, ir ou não viajar neste dia frio e nebuloso? Teria algum próximo trem para ser pego além deste? Mirava a placa com os horários de partida, talvez viria alguma alternativa próxima em menos de 45 minutos. Decidira esquecer-se totalmente do frio. Talvez no trem seria capaz de escrever em seu caderno todas as suas atividades, a fim de que nada fosse passado em branco. Ir ou não viajar hoje?

Afinal, já não tinha lugar nenhum para ir, nada mais a ser feito, estava em um país longínquo, sozinho e sem alternativas. Decidira ficar naquele mundaréu branco e esfumaçado. Passava-se o tempo.

De longe via as lanternas e o barulho de algum trem chegando, não sabia ao certo se esse seria o seu, mas entraria assim que as portas se abrissem. Era um trem antigo como os outros, via que os assentos estavam rasgados, num azul acinzentado. Alguns bancos antigos tinham sido substituídos por outros de cor marrom. Sentara próximo à janela. Tinham quatro acentos vagos próximo a ele. O trem inteiro estava praticamente vazio. Não sabia para onde ia e não ligava. De alguma forma chegaria à algum destino.

Sentara sozinho, com sua bermuda jeans e sua camiseta roxa. Miraria a janela por horas, não tinha vontade nem de ouvir músicas, talvez a canção do dia seria o barulho das poucas pessoas distantes conversando. Sua tarde fria teria como trilha sonora o barulho de um trem em movimento sob trilhos, parando de estação em estação, até um destino incerto.

De longe podia ouvir as conversas de Ana Luisa, falava em português alto e incômodo. Esperava que talvez ela não o visse. Pelo menos sabia que estava indo para o lugar certo, já que sua presença acusava o destino de uma viagem socialmente planejada por brasileiros perdidos no mundo, em um lugar novo.

Ainda não estava plenamente confortável com a situação quando ela se aproximara dele, falando alto e acompanhada de uma amiga bem magra e baixa, de cabelos escuros. Ana Luisa o cumprimentou como de espanto por vê-lo ali antes, como estariam todos eles indo para o mesmo lugar nessa tarde? Como talvez fariam para voltar desse destino ainda a tempo para dormir em Budapeste? Falava e falava, porém não se sentava próximo a ele. Sentia um grave incômodo e conforto com sua companhia, mas nada faria para continuar sozinho no restante do tempo, talvez fosse caso de aceitar sua presença ali e prosseguir viagem. Ela vestia uma camiseta azul claro e usava um jeans surrado enquanto carregava uma pequena mochila preta. Talvez ela seria mais legal do que imaginara.

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