São Paulo, Sociedade Anônima

Não ousou falar da dor, do passado, ou do presente. Ousou apenas sorrir, manter as aparências de normalidade. Ignorou os fatos e pôs-se a abrir uma garrafa longneck. A vida sempre continua, mesmo que recomeçar seja um ato cotidiano e vazio. Sequer fingiu existir um pingo de tristeza e de melancolia naquele olhar. Depois de um tempo bebendo, deixou que palavras dispersas fossem desabafadas de vez em quando, no dia seguinte que se dera conta. Mas o que vigorava era uma alegria, uma alegria falsa e necessária aos fins de semana. Sair com amigos é um ato de reafirmar sua existência social. Dar risadas, dançar e nem lembrar quais foram as músicas daquela noite, é um rota de fuga. Selecionar o lugar onde estar e com quem também é um ato político, de uma vida social que mais parece um quebra-cabeças impossível de ser terminado.

Estava de saco cheio de tudo, mas nem evaporar era algo possível, não há alternativas viáveis e serem preenchidas além daquele papel de si mesmo no teatro da existência. Às vezes sentia-se figurante da própria vida, onde tudo que fazia era ouvir músicas e chapar-se sem fim. Em tempos de depressão social, nem o papel de cidadão político é um sentido. Num limite de 50km/h diria com um cigarro pela janela, sem saber ao certo para onde ia, continuava assim, sem rumo, sem rotina, nem ao mesmo saberia onde estacionar esse carro, se é que faria sentido estacioná-lo. Muitas vezes saímos sem saber para onde ao certo. E ônibus e o metrô eram janelas para existência, túneis e pontos eram meros meios para fins desconhecidos.

The ghoulish entities they come floating through the walls.
Ghostly enemies they come floating through you door.

I gotta find peace of mind.

As figuras da vida social lembram a câmara dos deputados, é preciso escolher um partido, ou muitas vezes terminaremos na bancada da bala, ou pior, na evangélica. Às vezes sentia-se um “sem-partido”, como se fosse um pivô do ódio e do amor, sem saber para que lado olhar direito. Pelo menos na escola, sempre soube direito em qual lugar sentar. No fim sentia-se traído pela ilusão. Mesmo que dialeticamente lhe parecesse real por um tempo. Os olhos que um dia afagam, no outro te apunhalam pelas costas, deixando-te nua sobre as olhos de todos, com todos seus erros e defeitos para serem apontados e julgados perante a sociedade da moral e perfeição militante.

Dichavava tudo, enchia com água fresca e acendia. Os sons nem a solidão seriam os mesmos, pelo menos por um tempo. Fumaria a vida e todo o seu tédio, num êxtase parcial. Talvez fizesse algo naquela tarde, além de comer. O isolamento é um posicionamento político, ou se isolar com quem? Decidia se isolar de todo mundo que quisesse, não precisava de nada além disso. No fim não estava sozinho e nem sozinha.

Fumava seu papel de trouxa, fumava o passado, o presente e o futuro, numa ordem dialética contraditória. Fumaria a ferida de suas apunhaladas e iria rir disso. No filme se lembrava, recomeçar, mil vezes recomeçar, recomeçar de novo, recomeçar sempre, esquecer.

A vida e sua luta contra a reificação, apegando-se aos mínimos detalhes dramáticos se sentia viva, vivo, num êxtase. E assim, somos humanos, demasiados humanos. Esquecer Ana, apagar Luciana, lembrar das 500 obrigações do trabalho, mil vezes tentar ser um homem, recomeçar, aceitar, trabalhar, aceitar, uma engrenagem, depois um eixo deve ser entregue num prazo estabelecido…

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