Sobre o 11 de Setembro e a cronologia cíclica

Todos os anos são iguais. As pessoas postam algo nas redes sobre o golpe em Allende no Chile, o atentado às torres gêmeas e a independência da Catalunha. Repetidamente, as mesmas pessoas, todos os anos. O que é algo super apreciável, há dois anos eu passei o dia todo assistindo, lendo e compartilhando sobre o Allende no Facebook. Aquele exército de militantes virtuais desocupados, eu posso ser um deles nessa esfera pública virtual.

11 de Setembro é uma data mais significativa que o natal, por exemplo. Mas se repete como se fosse um ciclo nas redes sociais, todos os anos. Na vida temo em ser repetitivo nos anos seguintes. Muitas vezes me peguei ouvindo Pink Floyd pelas primaveras, ano após ano. Mas desapeguei, posso ouvir Pink Floyd quando der vontade, não importa o mês, não vale nem se for coincidência.

Podiam fazer um feriado em 11 de setembro. Cada qual relembra sua tragédia favorita, com o intuito de fortalecer uma luta legítima. Um feriado pra todas as datas trágicas em que a humanidade oprimiu e matou alguém, um número muito grande de inocentes. Podiam banir o natal e substituir pelo 11 de Setembro, seria muito mais moderno e verossímil. “O dia em que a humanidade sucumbiu à opressão”, poderíamos dizer.

Tem também aqueles que tentam lembrar o que eles fizeram no 11 de setembro anterior, ou que viram o atentado na TV antes de ir pra escola, ou que eram crianças quando Allende e o Chile caíram. Tem os milhares de catalães que saem às ruas lembrando o dia que foram dominados pela Espanha no século XVIII. Neste ano resolvi lembrar que estava em Londres há dois anos, visitando o túmulo de Karl Marx e Eric Hobsbawm.

Quantos 11 de Setembros não existem aí pelos calendários? E a data de quando a humanidade lutou bravamente contra a opressão e venceu? Vivemos uma vida calendarizada, cíclica, dialética, porém líquida e o eterno retorno é uma ilusão.

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Sobre o 11 de Setembro e a cronologia cíclica

O pôr do sol de Lúcia no Anhangabaú

Lúcia saiu de casa para estudar. O dia estava cinza, o sol se esqueceu de São Paulo neste dia. Nas ruas havia uma beleza única em cada pessoa que se passava por ela. Pensamentos sobre uma vida rural e sobre como ela vivida em harmonia com a natureza seria mais vantajosa passavam e cobriam-na de ideias sobre a negação de certos desfrutes da revolução industrial internacional contemporânea. Em um metrô via que, apesar de seu desemprego e do que dizem sobre uma crise econômica, todas as pessoas eram incrivelmente bonitas, aparentando serem mais bonitas que há anos atrás.

Uma amiga uma vez a perguntou:
-Desde quando as pessoas dessa cidade estão tão lindas? Desde quando esse lugar é tão legal?
Enquanto admiram a Praça Roosevelt sob alto teor alcoólico sanguíneo.

Fora ao Poupatempo horas antes, de todos os descasos do governo tucano, este órgão era minimamente eficiente. Talvez exista um quê de beleza na burocracia racionalista-weberiana. Tratou todas as pessoas como deveriam ser tratadas, seus concidadãos in demos, como seres únicos e especiais no universo.

Todas as cenas que Lúcia via pelas ruas ou tuneis do metrô eram dignas de uma bela fotografia. Dois jovens africanos disputavam para carregar, brevemente, pelo menos um pouco de seus aparelhos celulares numa tomado do metrô, sob o olhar vigilante de um casal de seguranças metroviários acima do peso, conversavam caminhando. Um casal simulava uma treta por um pedaço de sorvete caro. Os vendedores de fotos 3×4 sempre muito insistentes e pouco eficientes em detectar pessoas que realmente precisam de fotos 3×4.

Os edifícios todos eram uma obra artística de renomado valor caminhando para Sé. Mesmo aqueles mais antigos e abandonados, fundiam-se a grafites que enfeitavam a luta por moradia digna no centro. Os moradores de rua faziam sua própria poesia de sobrevivência, com suas cobertas acinzentadas, dormiam em monumentos, servidos de doações invernais.

O jovem casal Cheng Bo e Lei Feng optaram por andarem abraçadinhos do trabalho até em casa. São Paulo estava sob um curto dia de inverno montanhoso. Os pixos gritavam sobre as antigas igrejas e palacetes dotados dos famosos pisos térreos tão lusitanos. Nesse dia nem até a PM desistira de causar confusões. No vale do Anhangabaú dezenas de populares agasalhados desfrutavam do prazer da erva fumada, num fim de tarde eventualmente iluminado de rosa pelo Viaduto do Chá. Uma tarde discreta, mas cheia de energia.

Estava pronta para estudar. Talvez andaria até a Mário de Andrade. Talvez perambularia pela Praça Roosevelt. Talvez voltaria para casa e tiraria uma soneca. Já anoitecera e a noite era uma criança, como sempre.

O pôr do sol de Lúcia no Anhangabaú