Quando Lúcia apagou seu ex

Para Lúcia, ele não passava de uma presença virtual. Algumas fotos dele surgiam, junto de seus antigos amigos. Era impossível se esquecer do quanto foi difícil distinguir as amizades depois do término. Algo nele lhe lembrava seu nostálgico passado. Era um misto de melancolia, tristeza, saudades do que nunca mais existirá, desapontamento e medo ao mesmo tempo, metamorfoseados numa pessoa irreconhecível.

Evitava-o e apagava qualquer vestígio. Afinal, ela já uma mulher madura, não queria causar nenhum conflito, especialmente internos. Mas ele surgia, em telas de chat e ela fingia que não o via. Lúcia sofria por imaginar sua presença em cantos desconhecidos; evitava os mesmo lugares, os pontos famosos, os velhos locais que frequentavam juntos… Uma vez o avistara pela Rua Augusta, ficou arrasada ao pensar sobre como o futuro torna pessoas, um dia tão próximas, em estranhos tão distantes, irreconhecíveis na sombra de um anônimo olhar.

Assim passaram os dias. Não ousava segui-lo pelas redes sociais, mas ele estava lá, virtualmente, a lhe espreitar. Ele dava curtidas seletivas em suas postagens. Deixava comentários mais diretos, tentaria ele se aproximar, tentar ser amigo? Porém Lúcia não ousava arriscar, não depois de tudo, agora vigorava apenas o medo e as lembranças dos terríveis meses pós-ruptura. Ocorreram poucas e breves conversas, curtas e objetivas. Pouca aproximação queria ser feita. A dor de amar, a dor da rejeição e o ciúmes, se misturavam num misto de sentimentos destrutivos que não cessavam. De noite Lúcia bebia e fumava, achando que isso iria curar as cicatrizes em seu peito. O beijo das outras bocas era mera uma anestesia que uma hora ou outra perderia o efeito. Via-se sozinha e derrotada por um velho amor.

Afastou-se de todos os velhos amigos dele, da maneira como pode. Ao menos aqueles mais próximos. Lúcia sabia das relações cultivadas entre seus amigos e seu ex, mas nada podia fazer, não iria largá-los por isso, apenas ignorava. Sentia muito por isso, mas nenhuma possibilidade de convivência com ele era possível.

Alguns velhos amigos tentaram aparecer, de um a um, foram desistindo. A vida separa as amizades que um dia criou, pensava, sem que fosse possível reatá-las a curto prazo. As amizades surgem e vão, como os amores… muitas vezes, ambos casos estão relacionados. A vida adulta isso ensina.

A vida social pela internet tem um ‘quê’ de dor e sofrimento, de falsidade. Por que ser amigos nas redes depois de tudo? Por que ter que conviver com sua presença cotidiana? Mesmo não acompanhando suas postagens, fantasmas surgidos graças a algoritmos de somas matemáticas que fazem conexões entre amizades um dia sinceras, a presença estava lá. Era realmente necessário criar uma relação de falsidade para dar ares de maturidade e superação? Após um momento, desistiu. Decidiu destruir todos seus vestígios virtuais possíveis, assim como a vida já fizera naturalmente, decidiu se libertar de seu fantasma, que insistiu em ser camarada, sem sucesso.

O que um dia fora esperança, ilusões passadas, tornou-se mágoa, certeza do que jamais seria de novo, uma aceitação da derrota de uma relação de faculdade juvenil e de certo modo adolescente. A vida de universidade deu lugar a uma vida de desemprego e novas e incertas buscas de vida numa caótica realidade paulistana num Brasil devastado. Decidiu apagá-lo de vez.

Neste dia, acordou tarde, como de costume. Fez seu café spresso. Abriu o computador. Tremia de receio. Chegou a pensar duas, três, quatro vezes, insegura. Abriu as configurações da página. Sabia que, depois disso, ele desapareceria para sempre. Nenhum vestígio, como a vida já tratara de fazer. Escreveu seu nome, certificou-se que a foto batia à pessoa. Respirou, fechou os olhos e clicou. Sua foto ressurgia na direita, ainda, preocupou-se. Escrevia seu nome na pesquisa e nada! Clicou na foto para se certificar, uma mensagem dizia em outra língua, “você não pode mais falar com esta pessoa”. A pequena caixa de diálogo se fechava. Um vazio se encheu em seu peito. Desesperou-se por alguns minutos. Arrependeu-se. Pensou que havia cometido um grande erro. Sentia-se a pior ex-namorada do mundo. Surgiu uma melancolia. Um frio na barriga. Antes parecia que ele estava lá, apenas deveria ser ignorado a todo custo. Agora desaparecera completamente. Era como se fosse um término definitivo…

Até hoje Lúcia se pergunta o quão real pode ser apagar uma pessoa virtualmente, se ela subsiste em seus pensamentos, lembranças e sonhos. Era como se fosse um término definitivo… um dia sua vida, como uma personagem própria, tratará de fazê-lo verdadeiramente, como já fizera com seus antigos namorados. Lúcia ainda acreditava no amor, sabia que um dia poderia amar de novo, porém até então viveria nesse limbo transitório. Lúcia era uma mulher decidida.

Quando Lúcia apagou seu ex

Em tempos de crise: Akira (1988) – Katsuhiro Otomo

Em 1988 Tóquio é destruída por uma hecatombe nuclear. Em 2019, 31 anos mais tarde, Neo Tóquio está prestes a receber os jogos olímpicos de 2020. Enquanto isso, milhares de estudantes estão nas ruas protestando contra as crises econômicas e políticas do Japão, num cenário distópico de repressão, militarização e banditismo em gangues. É neste contexto que se inserem os amigos Tetsuo e Kaneda, membros da mesma gangue de motocicletas, “Os Cápsulas”. Kaneda possui a melhor motocicleta, donde vem a imagem mais famosa da animação, com Kaneda usando sua jaqueta vermelha de cápsula em uma moto plena de adesivos, entre eles o da força área americana (o mesmo dos aviões que bombardeavam o Japão) e o da empresa Canon.

Assim como o drama japonês Evangelion, que também retrata uma Tóquio devastada no início do século XXI ocidental, Akira também é protagonizada por jovens adolescentes, vítimas de um mundo cujo futuro é incerto. É um misto de ingenuidade, sonho, esperança por sobrevivência, ou pela criação de um futuro possível, algo que se reserva especialmente à esta fase dos primeiros anos de juventude.

Escrito e dirigido por Katsuhiro Otomo, o drama é baseado no manga homônimo, que a princípio não tinha intenção de se tornar uma animação e foi finalizado dois anos mais tarde em 1990. Akira não desperdiça cenas realistas de mortes cheias de detalhes, especialmente quando personagens são baleadas após uma cena de dialogo e caem sangrando de maneira muito verossímil. Uma animação que muito bem retrata o ponto final da vida após uma bala na face. Certas vezes as personagens prosseguem agonizando no chão. Jovens em protesto podem ser derrubados de uma ponte em poucos segundos, com detalhes especiais para suas tentativas frustradas de escalarem a ponte desmoronando em uma tentativa frustrada e natural que todos possuem pela sobrevivência.

Os detalhes e a verossimilhança estão em sintonia com a fantasia. Como típico das animações japonesas, prédios imensos desmoronam aos montes de uma só vez. Grupos de milhares de jovens são devastados de uma só vez por acontecimentos de altas magnitudes. Os detalhes das pedras e vidros caindo em cima da multidão podem gerar calafrios. A fragilidade de um corpo vivo caindo de uma moto se torna causa para muitos graves ferimentos, cada soco ou pontapé causa um dano específico claro nas personagens, ao mesmo tempo em que jovens super poderosos conseguem manipular grandes armas a laser enquanto dirigem motocicletas e fogem de explosões atômicas. É o realismo fantástico comum das animações japonesas.

Akira não poderia deixar de passar sem um romance assexuado entre dois adolescentes, no caso, Kaneda e Kei, uma adolescente que surge no decorrer da história e se torna uma importante protagonista, assim como Tetsuo e Kaori seguem a mesma linha (ambos amigos adolescentes passam a travar uma relação antagônica ao longo da história). As questões políticas e o diálogo entre a razão da ciência e o pragmatismo de um militar são colocados em confronto todo o tempo através da figura do coronel Shikishima e o doutor Onishi. Existe um plano de fundo político, descrito por TVs deixadas ligadas em cenas. Nada como a boa e velha mídia tradicional para descrever a  percepção das personagens, que se confronta com a realidade de fato, da repressão e dos protestos de estudantes, carregando bandeiras vermelhas e cartazes. As cenas da delegacia de policia após o protesto e das bombas de gás em meio à repressão é algo a ser observado com cautela, pois demonstram um realismo singular, especialmente após o Brasil de 2013. Outro destaque são os diálogos travados entre o coronel e as forças políticas do Japão, em constante embate. Política, poder e o pragmatismo da ação colocados em confronto.

A animação quando assistida em japonês se torna uma experiência rica, apesar de complicar o andamento e o entendimento da história, dado que é fundamental estar atento às legendas em uma língua tão difícil e diferente da nossa, num filme pleno de detalhes e explicações contadas através de metáforas e pela metade, em seu desenvolvimento, como é típico das animações nipônicas. Frequentemente nos deparamos com um enredo que atinge novas proporções em poucos segundos, deixando-nos confusos, em meio a longuíssimas e típicas cenas de ação. Não podemos esquecer que se trata de uma animação adaptada do manga, como de costume.

Vê-se todo tempo o fantasma da bomba atômica, que explode em 1988 numa suposta terceira guerra mundial e volta a ser uma ameaça séria ao longo da história. Isso somado a monstros terríveis consequentes das radiações e experimentos científicos, como se pode dizer sobre o Godzila nos anos 50. A história é repleta de explosões, destruição e alusões a possíveis apocalipses.

Temos um Brasil de ano pré-olímpico, onde é comum a repressão policial, os recordes de assassinatos a jovens, especialmente os negros das periferias. Um Brasil da desesperança política, da crise, do golpismo e do ódio. Em tempos de fundamentalismo religioso e da alienação em formas irracionais de explicação da vida. Numa realidade de corrupção, interesses lobistas, baixa legitimidade democrática, baixa participação, grupos oligarcas e baixa crença nas instituições e partidos. Tudo isso somado a um caldo emancipador de tomada de consciência coletiva, onde negros e LGBTs lutam por suas emancipações, novas formas de contestação surgem, onde a internet passa a ser um meio útil e necessário de articulação e sobrevivência política na esfera pública, cultural e comunicativa da sociedade atual. Akira, aproximadamente trinta anos depois, não descreve somente uma Tóquio distópica em ano pré-olímpico, mas representa muito um Brasil de 2015, com seus monstros, com suas próprias bombas atômicas prestes a explodir, com suas tragédias, seu apocalipse próprio, repressão, a ganância por poder e todas desvirtuações de nossa sociedade atual. Akira é um filme a ser por ora visto, encaixando-se como uma luva em tempos de crise, tão sombrios.

Akira – Katsuhiro Otomo
Duração: 121 minutos
Língua: Japonês
Lançamento: 16 de Julho de 1988.

Em tempos de crise: Akira (1988) – Katsuhiro Otomo

Por que defender Bela Gil?

Em resposta à coluna publicada por Alvaro Leme no R7, onde o autor tenta mostrar o porque do incômodo provocado por Bela Gil, porém apresentando argumentos desconexos sobre a real importância de Bela Gil como formadora de opinião no Brasil atual. Nessa coluna o autor parece ir à contramão de tudo que Bela representa, porém buscando defendê-la no fim, falando que a internet é a turma da “sexta-série”, tendo Bela apenas “opiniões diferentes”.
Link: http://entretenimento.r7.com/blogs/alvaro-leme/por-que-bela-gil-incomoda-tanto-20150728/

Para uma pessoa convicta da dieta vegetariana como melhor alternativa para uma vida saudável e com posicionamentos ético-políticos bem resolvidos sobre isso, uma visita a uma praça de alimentação de um aeroporto ou centro comercial pelo Brasil pode ser uma experiência traumática, especialmente quando não existe nenhuma possibilidade de estar com uma marmita bem feita em uma longa viagem. Absolutamente todas franquias e lanchonetes que operam em nossos aeroportos são incapazes de servir um só alimento vegano ou minimamente vegetariano. Ao indagar mais de uma vez se havia “um salgado ou alimento quente sem carne”, os atendentes sempre dizem, “tem frango com requeijão ou presunto”, como se a pergunta não fosse fácil o suficientemente para ser compreendida. Eu nunca vi uma plantação de frango ou presunto que nascesse em hortas e até onde sei, tanto o frango quanto o porco são animais abatidos para virarem frango desfiado e presunto. Portanto, ambos são carne, sim.

Eu nunca comi melancia na churrasqueira, acho que preferiria uma cebola, abobrinha, berinjela à parmigiana, uma bela pizza ou pão quentinhos à lenha, como costumo fazer em casa. Também não vejo nenhum problema, só acho louvável, que Bela Gil mande granola caseira, batata doce, banana da terra e água como merenda escolar para sua filha pequena.

Também não tenho minimamente pesadelos ao ver que Bela faz estrogonofe de cogumelos e palmito pupunha em vez de carne ou frango. Acho uma ótima ideia colocar inhame palha em vez de batata. Já fiz esse estrogonofe de pupunha em casa e mesmo os carnívoros convictos amaram.

Acredito que defender o uso de cúrcuma em vez de pasta de dente é uma polêmica menor sobre tudo que representa Bela Gil, sem dúvidas ninguém vai levar a opinião dela sobre cúrcuma como a maior verdade do mundo, pois ela se trata de uma nutricionista, não de uma renomada dentista.

Uma mulher que ousa combater de frente uma sociedade tomada pela carne como única forma possível de alimentar as pessoas, onde redes de fast food são praticamente regra absoluta para se alimentar em vias públicas, onde a indústria dita e controla a nutrição e o prazer de comer de uma pessoa comum, sem dúvidas, só pode ser defendida. Bela tem a capacidade de falar isso entre o mundo artístico, com programas televisionados por uma emissora do malévolo verdadeiro grupo Globo, para centenas de milhares de pessoas, seguida por mais de 400mil em um perfil de suas redes sociais. Bela tem livros publicados e muito bem sucedidos. Seu papel na formação de uma nova cultura saudável e livre de carnes como única regra de alimentação é de ser tomado como grandioso, usando e abusando de uma culinária genuinamente brasileira. E é exatamente por isso que ela incomoda tanto.

Seu papel de mulher bem sucedida, não só pelo fato de ser filha de Gilberto Gil, que combate de frente um dado status quo tomado pelo agronegócio e pelos interesses do capital alimentício, inclusive no próprio mundo da mídia em que ela se insere, gera revolta entre os conservadores de sempre. É difícil formar uma consciência emancipatória da alimentação numa sociedade que não dá valor para isso. Ir ao Mc Donald’s, ao Outback, ao Burger King ou até mesmo a uma hamburgueria gourmetizada é fashion, cool, passa na TV o tempo todo, está em todas as vias públicas de uma cidade minimamente grande no Brasil. Todo mundo atualmente sonha em ir a um sushi com a família no fim de semana. Os sonhos da grande periferia na Zona Norte de São Paulo (ainda) é ir comer no Mc Donald’s do Santana Parque Shopping com a família aos fins de semana e passear de cavalinho, para depois, ver novela, ou ir ao culto, quiçá. Bela Gil representa uma ruptura com tudo isso, é óbvio que ela não acessa as grandes massas proletariadas, digamos, mas é igualmente óbvio que ela é uma formadora de opinião neste país, com grande influência sobre nossas vidas. Para a sociedade do churras com os amigos, é óbvio que ela deve ser escrachada e virar piadas na internet, onde tanto ódio é profanado 24h por dia, a níveis criminosos.

Acredito sim que o estilo de vida que a Bela Gil apresenta em seus livros, programas, palestras deve ser defendido. Acredito sim que a sociedade deve repensar toda sua estrutura carnívora e industrial de se alimentar e ser feliz de forma saudável. O problema está muito longe de ser uma questão de internet como “sexta-série” ou mera opção saudável como estilo de vida. Fazer piada sobre a Bela Gil pode ser feita de forma delicada e bem humorada, como ela mesmo fez de si com o Porta dos Fundos, fazenda a receita de cachorro quente de rua no programa.

Não estou defendendo um mundo sem carnes, estou defendendo que isso deva ser uma entre muitas opções, onde se possa minimamente, em um aeroporto, em uma feira de rua, em uma centro comercial, alimentar-se de maneira saudável e gostosa sem ter que recorrer a grandes indústrias e franquias alimentícias que ditem nossa forma de se alimentar, baseado somente em uma cultura baseada na carne e no desperdício, onde isso seja concebido e aceito como cultura única e regra geral. Não é possível que seja normal milhares de pessoas morreram por consequência da obesidade no mundo ou que milhares de hectares de terras sejam devastados para o grande gado na Amazônia, citando poucos exemplos.

Portanto, é preciso defender a Bela Gil e seu trabalho como formadora de cultura e opinião no Brasil atual. De fato seu papel é contestador, questionador e de uma forma ou de outra emancipador, não somente se tratando da mera alimentação nutritiva saudável, mas questionando um modo de produção baseado no agronegócio, abusador dos transgênicos. Seja militando contra a Monsanto e por questões femininas, como o aleitamento materno, Bela é uma figura quase única e necessária em nossa sociedade brasileira atual.

Bela em suas próprias palavras:

Por que defender Bela Gil?